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segunda-feira, 25 de março de 2013 Imprensa, Olimpíadas | 08:00

O legado de Nicolau Radamés Creti ao jornalismo poliesportivo

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Capa do livro "Vitória", que conta a história do primeiro ouro olímpico do vôlei brasileiro

É difícil demais falar algo sobre alguém tão querido e que partiu cedo demais. A tela do computador vira um branco total. Por isso, não é fácil escrever sobre a morte de Nicolau Radamés Creti, um dos melhores amigos que fiz no jornalismo, desde que entramos juntos na Faculdade Cásper Líbero, há exatos 30 anos.

A dor pela partida precoce de um grande companheiro, ocorrida no último sábado (23/3), após uma dura batalha contra um câncer, dificulta ainda mais essa tarefa. Outros colegas fizeram com mais talento e competência tocantes relatos a respeito da convivência e de suas recordações com o Nicolau, como o Luís Augusto Simon, o Menon, em seu blog no UOL, o Daniel Bortoletto, em sua coluna no Diário Lance!, ou o Diário de S. Paulo, jornal onde ele trabalhou por 19 anos.

Se falar da perda pessoal é quase impossível para mim, é mais fácil tentar analisar o que o adeus do Nicolau deixará para o jornalismo poliesportivo do Brasil. Nicolau Radamés foi uma dos maiores repórteres esportivos que conheci. Tornou-se uma referência na cobertura dos esportes poliesportivos (termo moderno para o que a gente costumava chamar antigamente nas redações de “esporte amador”, ou seja, tudo o que não era futebol), mais especificamente no vôlei, no qual foi setorista por anos.

E é justamente nesse ponto que o Nicolau fez a diferença, algo que não vejo com muita frequência nas redações atuais. Em um tempo onde não havia celular ou internet, ele ia a treinos, ficava horas fazendo uma “ronda” no telefone assim que chegava na redação, ligando para TODOS os clubes ou dirigentes atrás de informação, e nunca terminava o dia sem uma matéria. Muitas vezes, furando a concorrência. Era um “farejador de furos”, como definiu certa vez o Menon.

Com toda essa dedicação, não foi à toa que após cobrir “in loco” as Olimpíadas de Barcelona 1992, ele escreveu, ao lado de Cida Santos, outra grande repórter, o livro “Vitória”, contando a saga da conquista da medalha de ouro da seleção masculina de vôlei, a primeira do Brasil em esportes coletivos na história olímpica. Este é, sem dúvida alguma, o melhor livro já escrito no país sobre esportes olímpicos até hoje, com depoimentos emocionantes dos 12 jogadores daquela seleção e do técnico José Roberto Guimarães.

E não foi apenas no vôlei que o Nicolau mostrou seu talento. Cobriu como poucos o esporte olímpico, “cavando” ótimas reportagens em modalidades que ninguém dava atenção, como a ginástica rítmica desportiva (GRD) ou o hipismo CCE, sempre trazendo ótimos personagens e informações precisas. E quando precisava, também sabia ser contundente. Não foram poucas as ocasiões em que o vi debatendo de forma dura com Carlos Nuzman, desde os tempos em que ele presidia a CBV. Mesmo assim, Nuzman sempre o respeitou.

Ainda tentando digerir a realidade de não ter mais este velho amigo ao meu lado, tenho uma única esperança: que os jovens jornalistas, espalhados pelas redações deste Brasil e que apreciam a cobertura do poliesportivo, se inspirem e repitam o exemplo de Nicolau Radamés Creti. Ele foi um dos grandes, tenham certeza disso.

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9 comentários | Comentar

  1. 59 A morte de um pedaço do vôlei brasileiro (e um livro que vale muito a pena) | Saída de Rede 01/04/2013 20:46

    […] Leia mais sobre o legado de Nicolau Radamés Creti no blog de outro excelente profissional, Marcelo Laguna […]

  2. Marcelo Laguna 31/03/2013 23:25

    Obrigado, Ana. Ele fará muita falta mesmo…Abs

  3. 58 Ana Lúcia Ventorim 31/03/2013 20:38

    Marcelo, com atraso – estava fora e sem acesso a dados – meus sentimentos pela perda de seu grande e querido amigo. O jornalismo realmente perdeu um profissional brilhante.
    Um abraço

  4. Marcelo Laguna 30/03/2013 1:48

    Valeu Mané, obrigado….com certeza foi um enorme privilégio trabalhar com ele mesmo

  5. 57 Mano Mendonça 28/03/2013 11:55

    Bela homenagem, Laguna….Nicolau vai deixar muitas saudades….Trabalhar com ele foi um privilégio.

  6. Marcelo Laguna 27/03/2013 18:48

    Obrigado pelas palavras, Miriam. Lembro muito bem desta época da Atlética, foi uma época muito boa.Beijos

  7. 56 Myrian Rosário 27/03/2013 14:43

    Estou arrasada, Laguna. Lembro de todos nós, pelos corredores, elevadores e salas da Cásper Líbero, trabalhando no projeto da Atlética que funcamos e sonhando com o nosso futuro no jornalismo esportivo. Estive com o Nicolau em Barcelona e em muitas outras ocasiões. Fica um buraco no peito e no jornalismo esportivo brasileiro. Saudades. Parabéns pelo texto!

  8. 55 Carlos Oliveira 25/03/2013 14:16

    É com muita tristeza e dor que o reencontro. E muito mais triste foi ler em seu blog sobre a morte precoce do Nicolau.
    Apesar da distância nesses últimos anos, ainda me resta a lembrança daqueles nossos bons tempos de Cásper, que jamais esquecerei.

    Um grande abraço

  9. 54 Fabio Bittencourt 25/03/2013 12:45

    Falar o quê nessa hora, né, Laguninha? O Nicolau era engraçado, mas o que sempre me marcou foi o fato de ele respeitar quem quer que estivesse ao seu lado, fosse numa grande cobertura ou numa simples coletiva. O cara já era uma lenda do esporte amador e se apresentava aos foquinhas como se fosse apenas mais um coleguinha de coberturas. Ajudava nas pautas, apresentava as pessoas, e depois comentava as matérias quando nos encontrava na rua – sempre perguntava de vc. mais tarde, quando fui pro Diário SP, era a mesma coisa. Ele vinha fazer comentários sobre as pautas de Variedades, cornetava as celebridades daquele jeitão engraçado dele, e saía rumo à editoria de Esportes, enchendo o saco da rapaziada. Baita sujeito, um exemplo pro jornalismo esportivo. O Nicolau vai deixar muita saudade e imagino sua tristeza neste momento, meu amigo. Forte abraço

  10. Marcelo Laguna 25/03/2013 11:16

    Verdade Cosme, o exemplo dele precisa ser preservado e compartilhado. Obrigado pelas palavras

  11. 53 Cosme Rímoli 25/03/2013 11:03

    Laguna, assino embaixo. O Nicolau só deixou exemplo de dedicação e competência por onde passou. A nossa classe, tão desunida, sempre o respeitou como grande jornalista. E ainda melhor como pessoa. Que descanse em paz…Cosme Rímoli…

  12. Marcelo Laguna 25/03/2013 11:16

    Você é um amigo generoso demais, Luizinho. Espero ter feito algo digno do Nico, pois ele merece. Valeu pelas palavras

  13. 52 Luiz Augusto Lima 25/03/2013 10:21

    Parabéns pelo texto, amigo Laguna. Sei como esses dias estão difíceis para você (se estão difíceis para mim, que convivi bem meno com o Nicolau…). Mas tenho certeza de que você ganhou uma luz no céu, a iluminar você e a família. Sobre a paixão do Nico pelas redações e pelas boas reportagens, repito o que disse no Facebook: você segue sendo um digno representante.

    Caro Ronaldo do comentário anterior, sim, o Nicolau escrevia a coluna “Onde anda você?” no Diário. Que bela lembrança!

    Abraços

  14. 51 ronaldo 25/03/2013 8:51

    É comovente a história do Nicolau, que tive o prazer de conhece-lo.

    Não sou jornalista e simplesmente um cara que o conheceu em um evento(aniversário acho) e depois passei a ler as suas matérias.

    Lembro que repito, não jornalista; ele tinha uma coluna no DSP “aonde anda você”(o nome da coluna ?), porem tive o prazer de colaborar com ele dando duas ou três “dicas” de personagem que fez história na politica e na musica(jovem guarda), que ele aproveitou e foi emocionamente, como conseguiu relatos até então não conhecidos ( Almino Afonso foi um deles)

    Nicolau, vc. teve ter levado seu net, e vai lembrar dessa história

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