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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013 Imprensa, Isso é Brasil | 19:28

A tragédia e a insensibilidade na São Silvestre

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Israel Cruz Barros era atleta paraolímpico desde 1993

O esporte não é diferente da vida, na verdade é uma extensão de seus momentos felizes, dramáticos e até trágicos, colocados em uma disputa pela vitória, por um título ou uma medalha. Sim, às vezes ocorrem tragédias em uma competição, algo sai fora do lugar comum e vez por outra, nos deparamos com uma notícia de um atleta que morreu durante um evento esportivo. É raro, mas acontece, infelizmente.

No último dia de 2012, uma destes momentos trágicos e inesperados resolveu dar o ar da graça na Corrida de São Silvestre. O atleta Israel Cruz de Barros, portador de deficiência física (amputado da perna esquerda), participava da prova para cadeirantes. Logo após a largada, quando tomou a direção da Rua Major Natanael (para quem não é de São Paulo, trata-se de um trecho de acentuado declive), perdeu o controle de sua cadeira de rodas e acabou se chocando em alta velocidade com o muro que circunda o Estádio do Pacaembu. Levado à Santa Casa, não resistiu aos ferimentos e acabou morrendo, antes mesmo da largada da prova masculina.

Como eu disse no primeiro parágrafo deste post, tragédias acontecem. Algumas, contudo, poderiam ser evitadas, ou até atenuadas. E mesmo com declarações de outros atletas cadeirantes ao jornal Folha de S. Paulo, em sua edição desta quarta-feira, argumentando que o percurso está mais seguro do que em relação a 2011 (primeiro ano da mais recente mudança de trajeto na São Silvestre), o fato é que existe um perigo naquele trecho, mesmo para atletas em condições normais.

Em 2011, entrevistei Adauto Domingues, ex-atleta olímpico e treinador do maratonista Marílson Gomes dos Santos, para preparar um infográfico a respeito do polêmico novo percurso, que tinha como chegada o Parque do Ibirapuera – mudança descartada em 2012, com a volta da chegada à Av. Paulista. E o próprio Adauto se mostrava preocupado com o desgaste físico proporcionado pela descida da Major Natanael e com o declive do trecho.

Ou seja, não se trata de um dos locais mais apropriados para se incluir em um percurso de uma prova de rua, ainda mais quando estão envolvidos atletas portadores de deficiência física. Amigos meus, que correram a São Silvestre em 2011, realizada debaixo de chuva, disseram que fizeram parte da descida praticamente andando, com medo de uma queda.

Mas se a morte de Israel Cruz de Barros foi uma tragédia – e provavelmente ficará sem uma explicação -, o que não tem justificativa é ler certas declarações de pessoas ligadas à organização da São Silvestre, na mesma edição da Folha, desta quarta-feira.

Não consigo aceitar, por exemplo, a falta de sensibilidade demonstrada pelo diretor técnico da prova, Manuel Garcia Arroyo, que há anos trabalha na organização da São Silvestre. Ao justificar ao repórter que não haverá mudança no percurso para 2013 por conta da morte de Israel, ele soltou esta pérola: “Todos os cadeirantes andam em alta velocidade na descida. O que se pode fazer é um alerta melhor. A cidade é cheia de subidas e descidas. Não faz sentido alterar o percurso. Seria como mudar uma curva de Interlagos em caso de acidente” (o negrito é do blogueiro).

Desculpe-me, senhor Arroyo, mas faz todo sentido mudar o percurso sim. Só para seu governo, Interlagos realizou profundas mudanças na chamada Curva do Café, onde ocorreram mortes de vários pilotos nos últimos anos. E para ficar em um exemplo mais famoso, no Autódromo de Imola, em San Marino, a Curva Tamburello praticamente desapareceu após a trágica morte de Ayrton Senna.

Outro absurdo é que a morte de Israel Cruz de Barros foi declarada às 8h50, dez minutos anters da largada da prova masculina, mas apenas no final da tarde do dia 31/12 é que os organizadores fizeram a primeira manifestação oficial sobre o ocorrido. Lamentável descaso, em minha opinião.

A São Silvestre já não é nem sombra do que foi em seu passado glorioso. Mas ainda dá tempo para salvá-la como uma das competições de rua mais tradicionais do mundo e, de quebra, evitar que novas tragédias como essa se repitam.

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